ADEUSATEUS
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— Gottfried Semper. 1861.
— Lucio Costa. “Interessa ao estudante”, 19xx.

Interessa ao estudante, antes de mais nada, conhecer como, em condições idênticas ou diferenciadas de época, de meio, de material e de técnica ou de programa, os problemas da construção foram arquitetonicamente resolvidos no passado.

A consciência do sentido verdadeiro dessa preciosa experiência acumulada é necessária para que então o aluno, profundamente imbuído do espírito novo de sua época, se familiarize com as condições particulares do meio em que vive, se assenhoreie dos novos recursos de material e de técnica, se informe das particularidades específicas dos programas contemporâneos, se exercite e apure nos segredos da comodulação e da modenatura, a fim de, por sua vez, habilitar-se a resolver, arquitetonicamente, os problemas atuais da construção.

Assim, portanto, de uma parte, história e teoria da arquitetura, de outra, teoria e prática da profissão de arquiteto, atividades consubstanciadas na disciplina que se convencionou denominar, com certa redundância, Composição de Arquitetura, e onde se aprende a arte de compor tecnicamente os edifícios e de ambientá-los, ou seja, simplesmente, a arquitetar.

A composição arquitetônica é, por conseguinte, a finalidade mesma da profissão do arquiteto, é para onde convergem e onde se corporificam todas as demais disciplinas do curso, que se deverão dispor no currículo, antes do mais, em função dela.

Compreendida assim nos seus fundamentos funcionais, vê-se como a composição de arquitetura abrange, por si só, o planejamento integral do edifício —ou do conjunto de edifícios— incluindo-se na sua didática a análise do programa, os estudos preliminares, o anteprojeto, o partido estrutural, a trama esquemática das instalações e o projeto definitivo de execução com os respectivos pormenores e especificações, porquanto em todas essas fases do planejamento estão sempre em jogo a concepção inicial e a modenatura efetiva do edifício ou do conjunto projetado. Trata-se em suma, de uma sucessão de escolhas que se inicia com a do partido arquitetônico e de cujo somatório e devida “dosagem” resultará a qualidade final da obra realizada.

É, pois, necessário que o futuro arquiteto tenha, desde cedo, uma perfeita noção do que sejam proporção, comodulação e modenatura (ou modinatura): proporção é o equilíbrio ou a equivalência no dimensionamento das partes; comodulação é o confronto harmônico das partes entre si e com relação ao todo; modenatura é o modo peculiar como é tratada, plasticamente, cada uma dessas partes.

Exemplificando: todas as caras obedecem ao mesmo partido —nariz entre os olhos e a boca; no entanto elas variam, porque no mútuo confronto dessas partes entre si e no seu relacionamento com o todo, ou seja, na comodulação do rosto, elas diferem; ainda assim, caras de comodulação idêntica podem ter aparências opostas, num caso rude, grosseira, vulgar; no outro, graciosa, delicada, senão mesmo “divina” —é que no modo peculiar como foram “modelados” os pormenores, ou seja, no seu acabamento, a respectiva modenatura mudou.

E importa também ao arquiteto, naquele sucessivos processos de escolha a que afinal se reduz a elaboração do projeto, ter sempre presente, como “lembrete”, o seguinte:
arquitetura é coisa para ser exposta à intempérie e a um determinado ambiente;
arquitetura é coisa para ser encarada na medida das idéias e do corpo do homem;
arquitetura é coisa para ser concebida como um todo orgânico e funcional;
arquitetura é coisa para ser pensada estruturalmente;
arquitetura é coisa para ser sentida em termos de espaço e volume;
arquitetura é coisa para ser vivida.

Assim como importa ter noção das características das diferentes escalas: na escala “plástica” ou ideal, a unidade de medida —o módulo— é uma determinada parte da coisa construída; na escala humana, ou funcional, a unidade de medida —a polegada, o palmo, o pé— é uma determinada parte do corpo humano; na escala teórica, ou abstrata, a unidade de medida —o metro— é a quadragésima milionésima parte do quadrante terrestre, ou seja, uma abstração, perdendo-se portanto qualquer relação com o homem ou com a coisa fabricada. O modulor, de Le Corbusier, vinculado à escala plástica, ou ideal, e à escala humana, tornou possível restabelecer, apesar do sistema métrico, o perdido sentido de proporção.

Finalmente, convirá acentuar a importância da intenção, porquanto a expressão final da obra dependerá do fiel e constante apego a essa intenção original. Assim, por exemplo, as chamadas ordens clássicas —dórica, jônica, coríntia— correspondem pura e simplesmente à expressão plástica de intenções diferentes, acrescidas àquela intenção maior de sereno equilíbrio, peculiar à arte grega: no dórico, força contida; no jônico, graça e elegância; no coríntio, requinte e riqueza; ordens estas a que os romanos acrescentam a toscana, de intenção mais utilitária, e, no sentido oposto, a hiperbólica ostentação da ordem “compósita” —fusão da coríntia com a jônica.

E agora, à guisa de “trabalho campo”, duas experiências práticas de arquitetura:

1 – Atenas, Acrópole: no último piso do embasamento escalonado, minha filha, encostando-se à coluna, sentiu que a concavidade das caneluras do fuste —que eram simples riscos nos desenhos da aula de Arquitetura Analítica— ajustava-se às suas costas; aí “sentiu” o tamanho da coluna que subia para receber os enormes blocos da arquitrave, e o Parthenon então surgiu para ela, do fundo do tempo (25 séculos!), na sua verdadeira grandeza.
2 – Florença, em 1926, num pequeno hotel à beira do Arno: uma velha senhora inglesa ao me saber arquiteto vira-se e diz: “Eu também sou sensível à altura e largura dos cômodos e dos vãos”. Nenhum professor, na escola, me falara assim.

— Mansilla, Tuñon e Asín. 1999.
— Max Ernst. 1919.
— Luiz Nunes. “Uma diretoria de arquitetura”, 1936.

[Grifos nossos]

Com o decreto n. 4, de 29 de agosto de 1935, o governador do Estado de Pernambuco, dividindo a Secretaria de Obras Públicas em diretorias técnicas especializadas, criou, entre outras, a Diretoria de Arquitetura e Construções (DAC), que foi a primeira organização oficial neste gênero levada a efeito no país.

Naturalmente, a criação dessa diretoria correspondeu à organização, em moldes definitivos, de medidas anteriormente postas em prática, com êxito, visando uma orientação oficial, rígida, livre de qualquer influência individualista, absolutamente técnica, para os serviços de arquitetura que o Estado está sempre realizando, dentro de suas possibilidades.

Ainda em fins de 1934, tudo o que se referia à arquitetura, tanto em obras estaduais quanto municipais, era feito à revelia. Apenas a prefeitura de Recife procurava melhorar o tipo de construções na capital, mantendo para isto uma “censura de fachadas” ou, mais prosaicamente, uma “censura estética”.

É inútil dizer que censura de fachadas é, e será sempre, em qualquer lugar, absurda e prejudicial. É impossível querer regular questões de bom gosto ou bom senso quando questões puramente técnicas escapam aos mais rígidos regulamentos. Mesmo que isto fosse possível, seria desastroso —como aliás tem sido sempre— subordinar todas as construções de uma cidade ao sabor de um profissional, por mais competente que seja. De mais a mais, já não há quem ignore que arquitetura não é uma questão de fachada…

Assim, existe somente uma solução. Em vez de estar o governo censurando os particulares, numa atitude hostil e inútil, e se permitindo os mesmos erros e absurdos, deveria antes cuidar dos seus edifícios, fazendo com que obedeçam a projetos elaborados dentro de um critério único e que sejam construídos em moldes mais avançados e adequados. Poderia, deste modo, o governo fazer compreender melhor o sentido da arquitetura, estimulando e orientando objetivamente os particulares e conseguindo nos seus próprios edifícios vantagens imediatas sob todos os pontos de vista.

O standtard de construção no norte do pais é baixo, não só por falta de recursos como também pelo desinteresse e inépcia dos que professam nestas atividades; portanto, uma repartição organizada, nos moldes previstos, poderia perfeitamente dar ao Estado bons edifícios, influindo diretamente em toda a região para uma revisão completa de velhos processos construtivos, deficientes, ainda empregados, e melhor orientação nas inovações ainda mal assimiladas e compreendidas. Para tanto, nunca faltariam ao Estado meios e recursos. A possibilidade de contratar profissionais experimentados garantiria o êxito sob o ponto de vista técnico. A facilidade de importação com isenção de impostos permitiria (e já estava permitindo) o uso dos mais importantes materiais por preços reduzidos de 50 a 6o%.

Ainda o aproveitamento racional das oficinas do Estado, das escolas técnico-profissionais e da Casa de Detenção, já bem instaladas, trabalhando com materiais de custo assim favorável, acrescidos de mão-de-obra também favorável, poderia fornecer tudo de que se precisasse, fazendo render aquelas oficinas até então onerosas e criando, simultaneamente, nestes lugares de trabalho e ensinamento, campo vasto para uma industrialização organizada, que cooperaria diretamente na elevação do salário operário, e melhor preparação dos que freqüentam escolas-oficinas, onde toda atividade, atualmente, se resume em obras pessoais destituídas de senso e significação, cuja aprendizagem, por mais esforçada que seja, os colocará sempre à margem da realidade.

Centralizados todos os serviços de arquitetura e construções numa única repartição devidamente aparelhada, evitaria o governo o péssimo processo de concorrência para as suas edificações. Nas concorrências sempre tem havido maus resultados. Talvez haja raríssimas exceções; provam-no as obras existentes, feitas por esta modalidade. Além disso, obrigam o governo a manter um corpo considerável de fiscais, impossibilitam a pesquisa tirando-lhe a mais importante finalidade que é a introdução de novos processos, impedem a sistematização do trabalho e a uniformização de elementos que tanto beneficiam as obras, dificultam a vantagem obtida com a isenção de impostos em material importado, tornam praticamente irrealizável o espírito de unidade tão necessário em obras públicas e destroem por completo a utilização dessa atividade para fins educativos e experimentais.

Num meio pobre, esta possibilidade de o governo construir bem e por preço baixo, melhorando as condições locais, educando, aperfeiçoando, selecionando, pesquisando e uniformizando, seria uma conquista de ordem técnica e social tão expressiva que justificaria todos os sacrifícios, embora contrariando as paixões mesquinhas, as competições vaidosas e os interesses inconfessáveis, que tudo neutralizam e dissolvem.

Foi bem compreendendo todas estas razões que o interventor daquele Estado baixou o decreto n. 352, de 3 novembro de 1934, criando a Seção Técnica de Engenharia e Arquitetura, que alguns meses mais tarde desapareceria, absorvida pela Diretoria de Arquitetura e Construções.

Criada a DAC, procurou esta, para atingir as suas finalidades, organizar-se, com os reduzidos recursos disponíveis, tanto de material quanto principalmente de pessoal, de modo a poder, com um quadro mínimo de funcionários efetivos e com um quadro variável de contratados, ampliar-se ou reduzir-se conforme as necessidades do serviço, sem prejuízo da sua organização estrutural e de soluções de continuidade. Assim, o quadro mínimo, fixo, manteria a organização desejada atendendo aos serviços imprescindíveis de conservação e levantamento do patrimônio […].

Conforme o quadro, eram as seguintes as principais atribuições da DAC:

a) estudar, projetar, detalhar, especificar e orçar todos os edifícios estaduais;
b) construir, reformar, adaptar e conservar todos os prédios estaduais;
c) projetar e construir edifícios municipais quando solicitados pelo Departamento das Municipalidades;
d) os edifícios particulares, mas de interesse público, que gozassem favores ou subvenções do Estado ou dos municípios, poderiam ser projetados e construídos pela DAC;
e) aprovar todos os projetos a serem construídos com verba estadual.

Estudados os primeiros projetos dentro do critério já exposto, e iniciados os serviços de construção, todas as seções, devidamente articuladas e mais ou menos orientadas para os fins desejados, passaram a colaborar com relativa eficiência, mostrando logo de início graves e pequenos erros, que geralmente passam despercebidos, e muitas vezes reincidem, com prejuízo do custo e acabamento das obras. […]

Iniciativas de caráter técnico e econômico foram também realizadas, como uniformização dos tipos de esquadrias, com adoção de caixilhos de ferro para os vãos externos, dos tipos de pavimentações, adoção de estruturas e principalmente de coberturas em concreto armado. Na construção do Hospital da Brigada Militar, com exceção dos capatazes, todo corpo operário é constituído por soldados, com redução de custo e formação de operários-soldados devidamente especializados. O mesmo se fazendo na construção do Reformatório de Menores com a mão-de-obra dos abrigados maiores de 18 anos.

Outra iniciativa de grande significação social, que a DAC estava prestes a realizar, era a alimentação de seus operários. Estudos de particulares e observações de empresas industriais dão como causa quase absoluta da pouca produtividade do trabalhador nortista a falta de nutrição suficiente e adequada. Assim, qualquer solução dada para melhoria dessa miséria seria bastante proveitosa e significativa. Seria a assistência mais elementar que o Estado daria aos seus trabalhadores.

Agora, a notícia trazida pelos jornais de Recife da extinção da DAC, levada a efeito pelo próprio governo que a criou, naturalmente iludido em sua boa-fé pelos que insinuam questões de ordem técnica com o fim único de acobertar interesses pessoais e subalternos prejudicados, toma um aspecto bastante triste e desolador, confrontado com outra notícia que traz o Boletim de obras públicas n. 17, de 1935, da República Argentina, relatando a iniciativa do governo da república vizinha criando a Diretoria Nacional de Arquitetos, entregue à direção do arquiteto José A. Hortal. […]

A seção de orçamento e controle, mais ou menos aparelhada com fichários, mapas e boletins de serviço, ia, pouco a pouco, acusando as vantagens e desvantagens provenientes do projeto, de seus detalhes, dos processos construtivos, da organização do trabalho, das dificuldades do pessoal, indicando com dados precisos e numéricos a verdadeira orientação a ser seguida.

Os orçamentos, que deveriam ser o mais detalhados possível, mostrariam o custo de cada um dos serviços por partes: material e mão-de-obra. Esta disposição, muito trabalhosa a princípio, facilitaria um justo pedido de material e perfeito controle durante a execução das obras.

Todos os elementos necessários ao controle eram fornecidos pelas obras em boletins diários em que constavam os materiais empregados com as respectivas quantidades e medições, e pessoal com respectivos salários e designação do tempo gasto em cada um dos serviços. Ainda os talões de recebimento de material completavam os elementos que serviriam de base para o controle e a organização de orçamento retrospectivo, que manteria sempre ajustadas as tabelas de preços.

Todos os materiais existentes nas obras também eram controlados de modo idêntico, competindo assim ao escritório a providência em tempo do material necessário. Estes serviços, embora ainda numa fase inicial, já correspondiam à expectativa.

Contando com uma existência muito curta e tempo de atividade normal menor ainda, a DAC pôde, contudo, apresentar, um ano após o primeiro decreto que dispôs sobre o assunto, uma produção promissora que, comparada ao que existia, muito significa, porém quase nada em face do que devia ainda produzir e realizar no âmbito formidável das suas finalidades e atribuições. […]

É lamentável, portanto, que tal conquista desapareça. É necessário que todos que administram compreendam bem que a arquitetura não pode deixar de ser uma preocupação administrativa porque é uma demonstração de cultura.

Uma repartição nos moldes da DAC, além de todas as vantagens, já vistas, de ordem material, técnica, econômica e social, marcaria através do tempo uma época.

Os prédios escolares do Rio de Janeiro recém-construídos, apesar das críticas de que são passíveis, serão por muito tempo marcos eloqüentes de uma atividade. Em Recife mesmo, até hoje, as obras realizadas por Nassau, dentro desse mesmo espírito, atestam ainda o que foi aquele início de colonização.

— Albrecht Dürer. 1514.
— De Vylder, Vinck & Taillieu. 2010.